Paulo Jorge - pintura acrílica Passagem

Vimos no artigo anterior como fazer ajustes numa fotografia para servir de referência ao pintar uma tela. Nesta parte, veremos como ampliar e desenhar no suporte usando linhas auxiliares.

Vamos por partes

Alguns atribuem a frase do título a um certo fora da lei londrino que viveu no século XIX, todavia, a mesma tem sua origem no pensamento de René Descartes, o grande filósofo francês que viveu de 1596 a 1650. Segundo Descartes, todo conhecimento é fruto da dúvida e diante de um problema de grande magnitude aconselhava dividir em partes menores. Assim, a solução do todo seria igual a solução das partes. Não temos propriamente um problema, mas a foto que desejamos passar para a tela. Sigamos o método do grande filósofo. Poderíamos dividir de duas maneiras distintas:

a) Dividindo com linhas horizontais e verticais

Essa é a maneira convencional de dividir uma imagem em partes menores para facilitar a ampliação. Uma solução seria imprimir a imagem e traçar sobre ela duas linhas horizontais e duas verticais, dividindo-a em nove partes, por exemplo, ou optar ainda por dividir em partes menores. Depois, bastaria traçar as mesmas linhas sobre a tela, respeitando a proporção. Se estamos usando um programa para edição de imagem, como o GIMP que indicamos no artigo anterior, ainda é mais fácil – basta usar o filtro “Grelha”.

Mas podemos encontrar um problema com este método. Suponhamos que ao dividir a foto encontramos medidas exatas, por exemplo: dividimos uma foto com a largura de 24 cm com duas linhas verticais em três segmentos de 8 cm. Agora, imaginemos que a tela que pintaremos tem 43 cm de largura. Ao dividir em três partes teremos a dízima periódica 14,333333. Certamente alguns colegas dirão que em pintura podemos fazer aproximações, mas estamos nos dirigindo aqui aos iniciantes. Com poucas linhas fica mais fácil compensar as medidas imperfeitas; com muitas linhas um erro sempre será propagado para as linhas seguintes. Por este motivo, veremos outro método.

b) Dividindo com linhas diagonais

Na realidade esse método não utiliza somente linhas diagonais, pois ainda utilizaremos uma linha vertical e outra horizontal, dividindo a tela ao meio em formato de cruz. Basta pegar as medidas da largura e altura, dividindo-as em duas partes, o que é muito fácil.

Sigamos os passos seguintes, primeiramente trabalhando na fotografia que já adaptamos (ver artigo anterior).

  1. Traçar as linhas diagonais. Assim, já marcamos o centro da imagem.
  2. Traçar as linhas centrais, dividindo a largura e altura por 2, formando uma cruz.
  3. Unir as pontas das linhas do passo 2, formando um losango.

Repetiremos estes mesmos passos para dividir a tela.

É muito difícil desenhar no GIMP. Tem uma maneira mais fácil?

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Pensando em facilitar a vida dos colegas artistas, preparei uma camada com o desenho das linhas auxiliares para ampliação. Tudo isso explicado nos mínimos detalhes na forma de tutorial. Entre na minha página www.paulojorge.art.br e veja como baixar os arquivos. Em caso de dúvidas, envie uma mensagem.

O esboço da pintura

Chegou a hora de fazer o desenho diretamente da tela, usando as linha que traçamos como referência. Para isso, o mais indicado é usar carvão vegetal próprio para desenho em tela, encontrado facilmente nas casas do ramo. Há quem desenhe com lápis, mas cobrir as marcas do grafite é mais difícil, já que algumas tintas são transparentes. O resíduo do carvão é removido antes da pintura, espancando a tela com uma pequena toalha ou trapo. As marcas permanecerão e serão absorvidas pela tinta. Não faça o desenho completo! Basta desenhar as linhas principais que nortearão a pintura, como as linhas das calçadas, muros e telhados. São segmentos de reta que, se estiverem em paralelo, apontarão para o mesmo ponto de fuga, que se localiza no horizonte. Este também é parte importante da pintura, que no caso estudado coincide com a linha d’água. Pode também representar as montanhas ou outros elementos importantes. Estão nos nossos planos realizar uma matéria sobre perspectiva atmosférica e geométrica, e também sobre regras de composição.

Mas não me altere o samba tanto assim

Chegou a hora de pintar! Teremos que decidir se mudaremos alguma coisa. Como mostra o título, trecho da música Argumento de Paulinho da Viola, podemos adicionar ou remover elementos, mas com comedimento. Se estamos pintando uma paisagem existente, com proposta realista, não devemos descaracterizar a região. Ainda que usemos técnica impressionista, priorizando a valorização da luz, não seria prudente descaracterizar a paisagem a tal ponto que um morador do local não a identifique. Essas considerações não são válidas para paisagens fictícias, onde temos mais liberdade de ação.

Optei por mudar a iluminação, principalmente a temperatura das cores. A foto referência retrata um lugar muito conhecido em Cabo Frio – RJ. Parecia representar uma tarde de inverno. Alterei para uma tarde de verão, com luzes mais quentes. Embora este procedimento pareça fácil, impactará diretamente na representação das sombras. Uma regra da pintura nos diz que luzes quentes produzem sombras frias, enquanto luzes frias geram sombras quentes.
Não é proposta deste artigo ensinar a pintar com tinta acrílica, mas para os interessados, deixo os passos que tomei nas fotos abaixo (clique em cada uma para ampliar). Oportunamente falaremos mais sobre o assunto.
Até a próxima!

PJ.Artes - FIM DE TARDE NA PASSAGEM
FIM DE TARDE NA PASSAGEM – Veja mais sobre esta obra

Os passos da pintura

Fontes

https://brasilescola.uol.com.br/historiag/a-razao-cartesiana.htm
Montero, Hangel – La Obtencion del Color: Un secreto al descubierto

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