Engenho de Farinha - Raspando mandioca

Caía a noite e os vagalumes enfeitavam a negritude da paisagem de Pau Rachado com suas piscadelas esverdeadas, como a espelhar as estrelas cintilantes do céu primaveril.

O grande galpão do velho engenho de farinha achava-se iluminado por lamparinas e candeeiros pendurados nas toscas paredes de pau-a-pique. Grossos rolos de fumaça escura brotavam das trêmulas chamas avermelhadas. A fumaça do querosene queimado grudava no teto de telhas de barro e caibros de madeira bruta, engrossando os flocos negros de picumã. Um cheiro acre invadia o recinto, emanado da canaleta de escoamento da água de mandioca sevada. Duas grandes prensas emitiam gemidos a cada aperto que o prenseiro dava em seus grandes fusos de madeira sobre os tipitis – balaios feitos de palha. Depois de seca, a massa era ralada, peneirada e torrada, transformando-se em farinha. A água, após decantar em recipiente próprio para extrair a goma, era descartada numa vala aberta na lateral da construção, onde pululavam tapurus alimentados pelos resíduos, gerando forte odor azedo.

Um enorme monte de mandiocas, transportadas por carros de boi durante o dia, aguardava no centro do salão pelos trabalhadores encarregados da raspagem. Estes se acomodavam no entorno do monte, munidos de suas faquinhas e canivetes, uns agachados, outros sentados em cepos de madeira ou no chão de barro socado. A maioria dos raspadores era composta de senhoras, pois seus maridos descansavam durante a noite para o trabalho duro da colheita no dia seguinte. Velhos e crianças maiores também participavam da tarefa, já que não suportavam o trabalho mais pesado.

No grande terreiro ao lado do engenho, brincavam as crianças menores, iluminadas unicamente pela luz das estrelas e pela lua que começava a despontar no horizonte.

O trabalho já começara em meio aos burburinhos dos trabalhadores e da criançada, quando alguém indaga em tom mais alto:

Gente! Onde está Negozinho? Será que ele não vem hoje?

Não sei não! – fala a velha Filomena – Ele está atacado do reumatismo…

B’as noite! – Interrompeu-lhe a fala uma ecoante voz vinda do enorme vão sem porta que havia na parede frontal do galpão. Era Negozinho, um velhinho franzino e já bem encurvado pelo peso da idade, exibindo sempre generoso sorriso que lhe expunha os poucos dentes teimosos  em permanecer na boca murcha e franzida pelo tempo. Como era de costume, contaminava o ambiente com o seu bom humor, apertando a mão de cada um e dando a bênção aos que lhe solicitavam – prática comum no interior. Tomou o seu lugar entre os trabalhadores, sacou sua faquinha gasta e iniciou sua tarefa em completo silêncio.

Tempos depois, dona Beata pergunta:

Como é Negozinho? Não vai contar uma história hoje?

Não, dona Beata, hoje não posso. Tenho que adiantar o trabalho. Alice, minha mulher, está precisando de um vestido novo para a Festa da Cruz. Preciso juntar dinheiro para comprar um corte de chita.

Conta, Negozinho! – Pedem todos, quase em uníssono.

O velho decide contar a história, após relutar um pouco. Precisava trabalhar e o serviço era remunerado pela quantidade de “jacás” – balaios feitos de cipós – cheios de mandiocas raspadas. As crianças, que brincavam no terreiro, já tinham como atração certa as histórias de Negozinho. Aproximaram-se em correria, ansiosos pelo divertimento. O ancião preparava-se, como se meditasse, para a narrativa infantil.

Era uma vez… – Assim começava sua história e a cada palavra que emitia podia-se observar os brilhantes olhos atentos da criançada. O tema era sempre variado – não repetia um conto mesmo que pedissem. Por sua boca desfilavam figuras conhecidas do folclore brasileiro e as clássicas fábulas infantis, como  “A Formiga e a Cigarra”, “A Lebre e a Tartaruga”, “João e Maria” e tantas outras. Todas com o seu colorido particular, repleto de interjeições e gesticulações próprias.

Terminada a seção infantil, os donos do engenho serviam um costumeiro lanche com café de caldo de cana, leite quente e batata doce cozida. Após comerem fartamente, as crianças menores punham-se a dormir em esteiras dispostas ao redor dos trabalhadores – critério necessário para que Negozinho contasse a história para os adultos. É bem verdade que alguns fingiam dormir – queriam ouvir também a narrativa seguinte, mas se descobertos…

Os temas eram diversos: mistério, suspense, terror e romances. Sempre uma história nova, mas todas interessantíssimas! Recriou dragões, construiu castelos, despertou princesas, narrou catástrofes, enfim, cada sonho que criava entretinha as pessoas e suavizava as duras horas do trabalho que tinham pela frente. Divertia-se por vezes estimulando o medo em alguns. Muitos não retornavam para suas casas antes de raiar o dia, temendo encontrar alguns dos fantasmas de Negozinho!

Antes mesmo de nascer o sol, o monte de mandiocas dava lugar a um amontoado de raspas e curuera que serviria posteriormente de comida para porcos e galinhas. Os trabalhadores retornavam às suas casas comentando as histórias que ouviram, com a certeza de que nas noites seguintes ouviriam outras. Sempre uma diferente a cada noite, enquanto durasse o preparo da farinha. Todos computavam felizes o total a receber no final da semana. Conseguiam produzir bastante ouvindo narrativas que faziam o tempo passar sem que percebessem. Somente Negozinho não atingia sua meta – produzia menos. Perdia muito tempo contando as histórias, além da lentidão natural que a velhice lhe imprimia.

Mais uma vez Alice teria que ir à Festa da Cruz com o seu vestido surrado. Mas não fazia mal. Ele também retornava feliz, sentindo-se útil para aquela comunidade. Seu dever estava cumprido!

O mais curioso disso tudo é que jamais ouvira falar de La Fontaine, Esopo, Malba Tahan ou qualquer outro autor literário. Era completamente analfabeto. Havia na região pouquíssimas pessoas que sabiam ler, e estes não tinham o hábito da leitura. Ninguém possuía sequer rádio! Questionado quanto a origem do seu repertório, dizia com risinho irônico:

Um anjo me contou.

Hoje a paisagem rural de São Pedro da Aldeia não abriga os engenhos de farinha, tão importantes outrora. Negozinho já não se encontra entre nós. Deixou saudade em todos que o conheceram, mas seu legado mais importante é a lição de compartilhar com o próximo as coisas que sabemos. Não tendo nada de material para distribuir, doava parte do seu tempo, na difícil tarefa de criar sonhos em corações enrijecidos pela vida dura do trabalho no campo. Mostrou que podemos ser úteis a cada instante – basta a vontade de ajudar sem pedir nada em troca. 

Numa outra instância da vida, onde haja uma roda de amigos atentos, lá estará o simpático velhinho, risonho e falante, a distribuir alegria. Que o bom Deus sempre o ampare, Negozinho, o fabricante de sonhos!


Paulo Jorge dos Santos
(São Pedro da Aldeia, 25 de novembro de 2005)

Categorias: Crônicas Literatura

Sobre o autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.