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“Botei meu sapatinho na janela do quintal. Papai Noel deixou meu presente de Natal”

Assim dizia a canção no radinho de pilhas que o moço da poltrona da frente segurava bem colado ao ouvido, lixando suas orelhas com o chocalhar descompassado do velho ônibus lotado. Foi mesmo um golpe de sorte a família Santos conseguir assento para todos, ainda mais agora que o Natal se aproximava.

Natal da minha infância sempre era alegre. Os familiares se reuniam para participar do banquete no dia vinte e cinco. Matava-se um leitão para o almoço. Tudo se aproveitava, mesmo sem geladeira. A carne era cozida e armazenada em latas, cobertas com a própria gordura do animal. Eram feitas linguiças de parte da carne e das tripas. Estas passavam dias a defumar. Nunca comemorávamos a passagem do dia vinte e quatro para o dia vinte e cinco.

povo da roça ia em peso para a cidade mais próxima em busca de cortes de tecido para roupas que a data pedia. A viagem da família Santos tinha outro propósito: visitaria nossa avó materna e passaria a noite de Natal com ela e demais parentes, retornando no dia seguinte para comemorar com os avós paternos. Eu, com cerca de cinco ou seis anos estava muito ansioso para chegar e ver os primos da cidade, na expectativa de que eles dividissem seus brinquedos interessantíssimos comigo. Afinal, enjoei de brincar com carrinho improvisado com duas laranjas enfiadas numa vareta de guaxima, guiadas por uma haste de bambu com gancho na extremidade inferior. Quando muito entediado desse brinquedo, revezava empurrando um velho pneu aposentado da charrete. Apesar disso, a brinquedoteca era imensa, pois tinha toda a natureza disposta a interagir comigo – o que dei conta mais tarde.

paisagem desfilava pela estreita janela do coletivo, toda respingada de lama. Meu pensamento, alvoroçado pelos apelos do radio do vizinho, já sonhava com presentes que só existiam na minha imaginação de criança. O rádio insistia: “Botei meu sapatinho na janela do quintal”. Então virei para meu pai e perguntei:
– Pai, se eu colocar o sapatinho na janela do quintal Papai Noel deixará um brinquedo para mim?

– Deixa de ser bobo! Respondeu meu pai irritado – Isso é besteira! Papai Noel não existe!

Meu pai era uma pessoa corretíssima. Trabalhador da lavoura desde a infância, procurava transferir aos filhos os ensinamentos morais que herdara dos seus pais. Se somente nos dava roupas e calçados era porque não sobrava dinheiro para comprar presentes como nossos parentes da cidade. Mas por que aquela resposta tão seca? Talvez porque no seu tempo essa modernidade de “Papai Noel” não existisse; ou talvez estivesse receoso de reencontrar minha avó materna – ela tinha fama de mal humorada. Sim, deveria ser isso: preocupação com a viagem. A resposta não me agradou. Queria ouvir algo que não matasse meu sonho de vez. Virei para o banco de trás onde minha mãe estava com meu irmão no colo. Ao seu lado, duas irmãs mais novas ocupavam um único assento. Ela, dedicada ao lar e submissa aos comandos do meu pai, o conhecia como ninguém. Antes que eu pudesse abrir a boca e lhe dirigir a mesma pergunta, levou seu dedo indicador aos lábios me pedindo silêncio. Obedeci.

Depois de horas de solavancos, lá estávamos nós desembarcando no ponto próximo à casa da minha avó. Minha mãe, com meu irmão ao colo, segurava com a mão livre a mão da minha irmã. Meu pai agarrou o meu braço com sua canhota e com a destra a mão da minha irmã do meio. Caminhões carregados de sal atravessavam à nossa frente rugindo e cuspindo grossos rolos de fumaça negra. Esperávamos o momento de trégua do trânsito para atravessar a via que nos separava da rua da minha avó. Eu não tinha pressa. Toda novidade era linda para mim! No interior não havia nada daquilo.

– Vamos agora! Comandou meu pai ao primeiro intervalo sem o transitar de carros.
A
rrancou a passos largos, seguido da minha mãe. Arrastados pelos braços, nós os acompanhamos à galope, como os potrinhos da roça seguiam suas mães.

Chegamos! Lá estavam minha avó, minhas tias e primos, alegres com nossa chegada! Beijos, abraços e muito falatório. Eu já estava ansioso para escapar dos braços das tias e brincar com os primos e seus brinquedos diferentes. Um estava com um carrinho na mão; outro tinha um trator, as meninas com suas bonecas incrementadas – uma verdadeira festa para meus olhos. Pena que ao tentar dividir o brinquedo ninguém queria me emprestar nada. Nem um pouquinho…

Minha cabeça não parava de imaginar como seria bom se eu tivesse brinquedos assim. Sabia que alguns tios eram empregados e passavam certas dificuldades, segundo comentários que ouvira dos meus pais. Como conseguiram dinheiro para comprar essas maravilhas? Perguntei para um primo quem lhe deu o carrinho e ele respondeu:

– Papai Noel, ora! Todo ano me dá um.

Pensei logo no sapatinho na janela. Como coube aquele carrinho? Será que veio desmontado? Assim caberia nos sapatos – encheria os dois.

Aproximou-se uma prima desfilando com sua bicicleta linda, toda verdinha como eu sempre imaginei a minha. Cheio de curiosidade perguntei quem lhe tinha dado e logo veio a resposta:

– Papai Noel me deu. A outra já estava muito velha…
Então minha cabeça endoidou: o carrinho desmontado podia caber no sapato, mas a bicicleta como caberia? Não entraria nem a roda – pensei. Olhei para os pés dela – pareciam normais. Achei muito estranho.

Chegou a hora dos comes e bebes. Abraços, felicitações e mais falatório. Nós brincávamos com os primos e não queríamos que o tempo passasse, mas passou. Chegou a hora de dormir. Os móveis da sala foram deslocados para uma parede, liberando espaço para as camas improvisadas. Meus pais logo dormiram – o cansaço da viagem era grande. Eu não conseguia pegar no sono. Só pensava no presente que tanto queria – parecia cada vez mais distante. Aquela música sobre o sapatinho na janela não saía da minha cabeça. Então tomei uma decisão: colocar meu sapato na janela. O que poderia acontecer? No máximo Papai Noel esquecer que eu existo e deixar o sapatinho vazio – imaginei. Muitas vezes meus sapatos já dormiram no quintal quando minha mãe os lavava. Eles já estavam acostumados.

Levantei e caminhei pé ante pé, com muito cuidado para não acordar meu pai. Não estava familiarizado com a casa, mas consegui chegar à janela, auxiliado por uma luz fraquinha que vazava da porta da cozinha. Abri com cuidado. Surpresa: não tinha quintal. A janela dava diretamente para a rua que estava deserta. A vontade de ganhar um presente era tão grande que mesmo hesitante pus os sapatos no peitoril e a fechei com muito cuidado. Fiquei atento aos barulhos de fora – queria ouvir a chegada do Papai Noel. Mas o sono me venceu, afinal, estava muito cansado.

Na manhã seguinte meu pai nos acordou . Corri para a janela para pegar meu presente! Abri o mais rapidamente que pude e tive minha maior surpresa: não tinha presentes… nem sapatos. Papai Noel sem vergonha, esse da cidade! Não deixou meu presente e ainda levou meus sapatos! E agora? Como contar para os meus pais? Contei entre lágrimas. Acho desnecessário relatar as sanções decorrentes do fato, mas não posso deixar de informar que este Natal foi bem pior que os anteriores. Na roça os presentes eram roupas e no máximo brincávamos de bola com a bexiga do porco, insuflada com ar. Desta vez, no lugar da brincadeira inocente havia tristeza. Voltei para casa cambeteando com calçados de par improvisado com marcas diferentes. Estes os primos emprestaram…


Os anos se passaram. Casei, tive filhos. Não alimentei neles a fantasia de Papai Noel. Ademais, achava muito estranho o tal velhinho ser contratado por lojas com a única finalidade de estimular as crianças para as compras, deixando os pais em apuros. A figura do bom velhinho não mais existia.

Certa vez, questionado por familiares sobre minha forma radical de encarar o assunto, resolvi levar meu filho a um shopping próximo de casa, onde as crianças dos vizinhos foram ter com o tal Papai Noel para serem fotografadas. Ao chegar fiquei surpreso com o cenário montado: muito bem decorado, com presépio e acessórios referentes ao nascimento de Jesus, conforme prega a religião católica dos meus pais. Embora eu e minha esposa não adotemos tais simbologias, já que nossa filosofia religiosa é outra, achamos que estávamos excluindo nosso filho de um comportamento social comum. O garoto não quis de jeito nenhum! Insisti só um pouquinho, mas achei ótimo!

Em visita a cunhados, citei esse episódio. Relataram que o filho deles foi visitar o tal Papai Noel quando tinha a idade aproximada do meu filho. O sobrinho era, como se diz popularmente, “encapetado” quando criança. Sentado ao colo do velhinho começou a cutucá-lo com o dedo em riste. Parece que o bom homem não resistiu à provocação. Não demorou muito e veio o menino correndo em direção aos pais. Com o dedo elevado acima da cabeça, gritava:

– Papai Noel me mordeu! Papai Noel me mordeu!

Mais uma vez me senti recompensado por meu filho ter refutado essa figura lendária. Que Papai Noel que nada! Embora haja divergência nas datas, comemora-se o nascimento de Jesus. A graça dos festejos está no congraçamento, na troca de abraços, no perdão e na conciliação. Estes sim, são os verdadeiros presentes!

Paulo Jorge dos Santos

24/12/2019

Categorias: Literatura Crônicas

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