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PASSEIO EM SÃO PEDRO DA ALDEIA - AST 40 x 60 (Paulo Jorge)

Obra de igreja”, segundo o ditado popular, é uma obra que demora muito para ser construída, semelhante às construções de igrejas, que, noutros tempos, demoravam muito por falta de dinheiro. Ao que parece, o tempo moderno está um pouco diferente, já que igrejas, de diversas denominações, parecem brotar em muitas cidades brasileiras. Minha obra artística “PASSEIO EM SÃO PEDRO DA ALDEIA” talvez possa ser apelidada de “Obra de igreja”, uma vez que também demorou muito para ser concluída.

Histórico da Obra

Em 2021, passando pela Praça Matriz, o local não tinha pessoas transitando — o que é raro naquele horário. Encantado com a beleza das construções coloniais, que sobressaíam no ambiente com jardinagem impecável, resolvi fazer algumas fotos, pois a tarde estava bastante ensolarada, deixando as construções com boa iluminação. Escolhi uma das fotos como base da pintura e comecei a pintar uma tela, mas acabei abandonando-a num canto por conta de outras tarefas que assumi. O tempo passou e esqueci completamente do quadro. Recentemente, ao arrumar meu ateliê, encontrei-a, meio empoeirada, e decidi dar continuidade à pintura. Acrescentei alguns elementos e retirei outros para enriquecer a composição; contudo, cuidei de preservar os detalhes dos prédios e da linda paisagem. As pessoas foram acrescentadas para “humanizar” o quadro e ressaltar os pontos de interesse.

Sobre as igrejas

A Igreja Matriz de São Pedro, em São Pedro da Aldeia, é um marco colonial de 1620, construída por jesuítas e indígenas com pedra, cal e óleo de baleia. O conjunto histórico no centro inclui a antiga Igreja dos Jesuítas e a nova Igreja Matriz, formando um dos mais importantes patrimônios religiosos e culturais da Região dos Lagos. 

Igreja dos Jesuítas (Antiga Matriz)

Iniciada em 1620 e concluída por volta de 1783, é uma das primeiras igrejas jesuítas do Brasil, representando a catequização dos índios.

Igreja Matriz de São Pedro (Nova)

Construída no século XIX (aprox. 1840-1887) à frente da antiga, refletindo a influência branca e a organização da irmandade local.

Conjunto Arquitetônico

As duas igrejas situam-se no alto da Praça Matriz, um local de destaque com características barrocas, fachada branca e vista panorâmica, representando um ponto de apoio e comunicação no passado.

Padroeiro

Ambas as igrejas são dedicadas a São Pedro, padroeiro dos pescadores, simbolizando a fé e tradição local. 


Como Pintar Paisagens Reais

Paisagens reais são aquelas que identificam um local. O observador reconhece de onde se trata no primeiro olhar. Há basicamente duas maneiras de pintar essas paisagens:

1) Pintura ao vivo

Para pintar ao vivo, o artista monta seu material de pintura em local onde possa observar o objeto que deseja pintar. Alguns chamam esse processo de “pintura ao ar livre“, mas a maioria prefere usar a expressão francesa “en plein air“, ou simplesmente “plein air“, que quer dizer “ao ar livre“. Eu prefiro evitar estrangeirismos na língua portuguesa; assim, chamo de “pintura ao ar livre“.

Essa modalidade de pintura não é tarefa fácil, pois requer situação climática favorável e agilidade por parte do artista. As luzes e sombras devem ser registradas o mais rapidamente possível, pois tudo pode mudar em uma hora. O artista não poderá utilizar objetos de apoio como no estúdio, fazendo da improvisação seu recurso fundamental. Faremos, em tempo oportuno, um artigo sobre “pintura ao ar livre“.

2) Pintura baseada em fotos

Para pintura baseada em fotografias, o principal apoio é exatamente a fotografia. Se na “pintura ao ar livre” o artista pode andar até o objeto para identificar um detalhe sob ângulo diferenciado, na “pintura baseada em fotos” isso não é possível. Para minimizar esse problema, são necessárias várias fotos em distâncias e ângulos diferentes. Embora seja esse um complicador, já não precisará registrar as luzes e sombras com a rapidez necessária para a “pintura ao ar livre”. Sobre esse assunto, sugiro a leitura de um artigo que escrevi há algum tempo, cujo título é “Pintura sob encomenda — problemas e soluções” (https://www.paulojorge.art.br/pintura-sob-encomenda-problemas-e-solucoes).

Execução da Obra

PASSEIO EM SÃO PEDRO DA ALDEIA” é o título da obra que estou usando como exemplo. A alusão à “obra de igreja”, feita na introdução deste artigo, se deve a dois motivos: os objetos da pintura são igrejas e demorou muito tempo para a conclusão, exatamente como acontecia com as construções das igrejas. A diferença é que, no caso das igrejas, a demora se dava por falta de recursos financeiros, enquanto no meu quadro foi por esquecimento da minha parte.

A obra foi baseada em fotos, muitas fotos! Sobre a necessidade das fotografias, tratamos no tópico anterior. São Pedro da Aldeia é minha cidade natal, então, por que eu precisei de tantas fotos? Simples: nunca confie na sua memória. Nosso cérebro nos prega peças de vez em quando. Ademais, a praça já foi reformada tantas vezes que seria impossível memorizar cada mudança.

Simplificações

Algumas simplificações são necessárias na maioria das pinturas de paisagens reais. Isso melhora a harmonia do quadro, obedecendo às regras de composição. Mas o que posso retirar? Certamente as construções principais não devem ser alteradas nas suas principais características, sob pena de os observadores não reconhecerem a paisagem. Também não devemos alterar os relevos, que identificam a cena. Objetos que podem ser mudados pelos homens, esses sim, podemos alterar — suprimindo-os ou modificando suas características. Podemos “podar” ou simplesmente deixar de pintar uma árvore, por exemplo. Retirar pessoas da cena pode ser benéfico para a obra. Objetos de fundo, fora do centro de interesse, devem ser simplificados (pintados sem muito detalhamento).

Na pintura que estou usando como exemplo, suprimi parte do extremo direito da foto para ajustar à proporção da tela que usei. Deixei de pintar o encosto de um dos bancos da praça, pois tiraria o foco da mãe com a criança que está passeando no local (colocados como acréscimo).

Acréscimos

Pessoas que não estão na foto original foram acrescentadas para “humanizar” a pintura. O jardineiro, a mãe e a criança transmitem a ideia de movimento e servem para melhorar a composição. Os pássaros próximos à torre da igreja também insinuam movimento, mas um deles teve função mais nobre — cobriu uma mancha que estava na tela. Os pintores sabem a utilidade de objetos que possam ocultar pequenos acidentes ou erros na execução da obra. O mesmo ocorre com algumas nuvens acrescentadas. Além de melhorarem a composição e realçarem a temperatura do ambiente — que optei por deixar mais quente do que na foto —, servem para ocultar emendas no degradê do céu. Reformar o céu não é tarefa fácil para ninguém!

A Obra

Todos os detalhes da execução da obra “PASSEIO EM SÃO PEDRO DA ALDEIA“, incluindo o PASSO A PASSO, estão em https://www.paulojorge.art.br/project/passeio-em-sao-pedro-da-aldeia.

PASSEIO EM SÃO PEDRO DA ALDEIA - AST 40 x 60 (Paulo Jorge)

Categorias: Técnicas Artigos

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