Imprimação (Paulo Jorge)

Quando compramos uma tela devemos realizar alguns procedimentos antes de iniciar a pintura. Isso é muito importante para garantir a qualidade e longevidade da obra.

Como são feitas as telas?

Tela de pintura

Basicamente as telas são formadas por um pedaço de tecido esticado e grampeado sobre um chassi de madeira. Os grampos podem ficar na parte posterior ou lateral. As grampeadas no verso são mais caras, pois o tamanho do tecido é maior. São as minhas preferidas.

Cuidados ao comprar telas:

  1. Qualidade da madeira – quase sempre a madeira utilizada é “pinus”, por ser leve e de baixo custo. Observe se não contém muitos “nós”, o que pode enfraquecer a estrutura. As emendas, caso existam, devem estar alinhadas com a peça em questão.
  2. Qualidade do tecido – podem ser de linho (preferidas por artistas realistas) ou lona – mais baratas. Podem ter tramas menores ou maiores. Para pinturas mais delicadas as de menor trama são ideais, enquanto as outras são preferidas por artistas que usam pinceladas mais soltas e vigorosas. Outros tecidos podem ser usados, embora não seja comum.
  3. Imprimação original – A tela recebe uma cobertura na fábrica para selar o tecido, evitando que a tinta da pintura atinja suas fibras. Casso isso ocorra, o óleo, presente nas tintas à óleo, poderia danificar o tecido e facilitar o aparecimento de fungos. Seria ideal que as fábricas utilizassem material de boa qualidade, como o gesso acrílico em quantidade suficiente, mas isso raramente ocorre. Alguns fabricantes usam tintas látex com base vinílica na imprimação, as mesmas utilizadas para pintar paredes, o que baixa o custo e também a qualidade do suporte.
  4. Ausência de furos – observe contra a luz para verificar se não há furos na tela.
  5. Esquadro – Coloque a tela sobre um piso do estabelecimento para verificar o esquadro. Telas tortas prejudicarão a obra.
  6. Ausência de fungos – observe o fundo da tela. Não compre com manchas escuras no tecido ou na madeira. Podem ser fungos, e nesse caso, o mais provável é que se multipliquem e danifiquem a pintura.

Posso pintar sem preparar a tela?

Pergunta direta, cuja resposta é complicada. Depende da qualidade da tela adquirida e do tipo de tinta que pretende usar. Com tinta acrílica é provável que possa pintar diretamente, caso a imprimação original (vista no tópico anterior) seja satisfatória. Isso se dá porque essa tinta já possui em sua composição a resina acrílica, que atua como aglutinante. A tinta acrílica, cujo processo de secagem é por evaporação, dificilmente atingirá o tecido e ainda que atinja não causará danos graves. O mesmo não acontece com a tinta a óleo, onde o aglutinante é óleo de linhaça e pode danificar a trama. Não devemos esquecer que o processo de secagem, nesse caso, é por oxidação – reação química lenta.

Como preparar a tela?

Longe vai o tempo em que os pintores usavam cola elaborada com pele de coelho ou gelatina para selar o tecido. Essas substâncias orgânicas facilitavam muito a proliferação de fungos. Atualmente há produtos mais modernos, como o gesso acrílico – substância mais utilizada para a imprimação de telas. Mas o que é mesmo imprimação?

Imprimação ou imprimadura

Em quaisquer dicionários da língua portuguesa veremos que as palavras “imprimação” e “imprimadura” são sinônimas. Consiste na aplicação de uma camada inicial, preparatória para receber as camadas posteriores. Notemos que não se aplica somente às artes – também na engenharia civil o termo é muito usado. Para imprimar telas, o produto mais utilizado é o “gesso acrílico“, composto por “gesso cré“, “pigmento branco” e “resina acrílica” – a mesma utilizada na tinta acrílica. Embora alguns artistas pintem diretamente nas telas sem nenhum tipo de preparo, a grande maioria prepara suas telas, divergindo no modo como o fazem:

  1. Aplicar gesso acrílico diretamente – aplicar a primeira camada com trincha e após secar lixar suavemente com lixa fina. Repetir o processo até que fique uniforme. Geralmente não excede a três demãos.
  2. Aplicar o gesso após selagem – o artista e autor “João Barcelos”, em seu livro “Pintura – além do pincel”, recomenda selar primeiramente a tela com “cola branca” bastante diluída em água (cerca de 10%). A solução aquosa penetra no tecido selando a trama. Após secar, aplicar o gesso acrílico e lixar suavemente com lixa fina. Repetir o processo até que fique uniforme.

Queimar a tela

Nada de fazer isso literalmente! Trata-se de uma metáfora. Consiste em aplicar uma camada de tinta bastante diluída (magra) sobre a superfície antes de fazer a pintura. Geralmente com cor “terrosa” (tons que lembram as cores da terra), embora outras colorações sejam utilizadas. O uso de cores terrosas, segundo alguns autores, facilita o processo de secagem da tinta a óleo nas camadas superiores, que como já vimos, ocorre por reação química. Outros artistas utilizam cores predominantes na pintura, podendo ficar trechos da obra “vazadas” nas camadas superiores. Há alguns que usam as cores utilizadas nas regiões de sombra da tela. O ponto em comum é a percepção visual mais apurada das cores, pois o fundo branco original ofusca nossa visão.

Há colegas que chamam esse processo de “imprimatura”, mas não fui capaz de encontrar esse termo em nenhum dicionário.

Trabalho de preguiçoso

Acusam-me, mas é intriga da oposição. Explico melhor: quando pinto com tinta acrílica, faço a imprimação com “tinta para piso“, já que essa tinta para uso imobiliário tem muita resina em sua composição. Ainda reforço com “cola branca” em pequena quantidade (cerca de 10%), acrescento água e cubro toda a superfície com o auxílio de uma trincha. Esse processo é refutado por alguns colegas, sob alegação que o gesso ao ser lixado produz o que chamam de “dente”, facilitando a fixação da tinta a óleo. Mas como disse, uso esse método em pinturas com tinta acrílica, que tem maior aderência. Raramente lixo a imprimação. ´

E o trabalho de preguiçoso? Ah, sim, já ia esquecendo: misturo também o pigmento que quero para queimar a tela – assim, elimino uma etapa.
Para concluir, reforço que o objetivo maior da imprimação é evitar que os componentes da tinta contaminem a tela e favoreçam o aparecimento de fungos. Mas ainda assim há ocasiões em que eles insistem em marcar presença. Isso é assunto para outra oportunidade. Até lá!

VIGILANTE (Paulo Jorge)
VIGILANTE – Acrílica Sobre Tela (Paulo Jorge)
A tela foi preparada com imprimadura “bege”, cor predominante na obra, o que facilitou o trabalho.

Referências

Compartilhe com seus amigos

Sobre o autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *